CESTA

BELEZA SELVAGEM

A beleza da mulher índia é o efeito da sua liberdade. É uma beleza que não se indianota à primeira vista, porque não procura ser notada. É uma beleza que está sempre presente mas não se impõe. Apenas se pressente quando o desejo da fecundidade paira no silêncio da floresta.
De olhos negros, cabelo preto, ombros robustos e seios livres, a mulher índia é quase um desafio à nossa raça, aos nossos dispendiosos gostos, às nossas preocupações alimentares. Tal como a maioria do povo da floresta, ela quase nunca se alimenta o bastante e vive privada dos ingredientes de base da dietética moderna, como o leite, os legumes, e muitas vezes da fruta.
Enquanto nós fazemos da beleza um espectáculo, tornando-nos reféns das calorias e das vitaminas, a mulher índia vinga-se, sendo apenas bela. Apesar dos enfeites que retira da natureza ou das pinturas com que cobre o corpo desnudado, a mulher indígena não pretende dominar nem rivalizar com nenhuma outra imagem que não a sua.
Sem noção dos conceitos de beleza adoptados pelas sociedades modernas, a mulher índia torna-se encanto porque é misteriosa e segura. O rosto oblíquo e os olhos rasgados realçam-lhe os traços selvagens.
Mas o que verdadeiramente a distingue é o facto de ser livre. Como refere o escritor francês, Jean-Marie Le Clézio, a beleza da mulher indígena não resulta do acaso mas da sua “liberdade de ser o que é, sem receio dos interditos da moral ou da religião; liberdade de escolher para o corpo e para o espírito os seus trabalhos, os seus acasalamentos, os seus partos. Liberdade de se afastar do homem que deixou de amar, de procurar um homem que lhe agrade, de beber os cozimentos das plantas abortivas ou de envenenar o filho à nascença, se este não for por ela desejado; de viver na casa que lhe agrada, de possuir o que deseja e de recusar o que odeia. Liberdade do seu corpo, da sua nudez, dos cuidados que ao rosto há-de dar”.

Por: Francisco Pedro

4 responses

6 07 2010
Sandra Costa

Muito bonito o teu texto. Parabéns!!

28 07 2010
Marisol Dos Santos

BELEZA SELVAGEM… certo, gostei… eu nasci en Venezuela temos fronteira com o Brasil, em nosso pais temos varias tribus… na realidade so Luso Venezolana, me agrada este espaco Website e do que escreve, de como se espressa das suas vivencias… Francisco Obrigada por compartilharlas.

Mis comprimentos…

nota: apenas levo pouco tempo em Portugal, desculpe a minha gramatica.

27 02 2011
Deusarino de Melo

Esta apresentação da mulher indígena, mulher selvagem, é incomparável!!!
Parabéns!
Só posso acrescentar elogios a este trabalho…
Visto pelo meu olho indibrabra (ou seja, meio índio e meio branco brasileiro) esta definição da mulher indígena não é só definição, é imagem real, dotada de sentimento e vibração libertadores da alma e do coração.

3 03 2012
TIÃOZINHO

Sou descendente de indígena e bugre e muito me alegra esta matéria.
Grato pela explanação..

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